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Tuesday, March 11 A importância do planejamentoDesde que vim viver aqui em Berlim, muitas coisas me surpreenderam diariamente. Algumas positivamente, outras de forma negativa. As diferenças sao muitas, mas decidi dar tempo ao tempo até entender adequadamente o mundo em que vivo, antes de voltar e escrever, para não cometer o erro de me apressar a dar uma opinião e depois descobrir que não havia entendido a situação.
A vivência nesta cidade cheia de história, que há menos de 20 anos ainda estava dividida e era o representante mais agudo da divisão ideologica no planeta, proporciona um grande aprendizado diariamente, ao conversar com sobreviventes da Segunda Guerra, dos dois lados do muro, da repressão na Alemanha comunista e de tantos outros fatos do rico passado da Capital. No entanto o presente, resultado de um passado tão doloroso, é o que mais me chama a atenção.
Grande parte de Berlim foi destruída na Segunda Guerra e grandes espaços urbanos foram reduzidos a ruínas. Ha que diga até que não há morros naturais na cidade, senão construção sobre entulhos de guerra. Em cima desses grandes vazios, foi erigida uma cidade muito bem planejada, com largas avenidas, muitos parques e canteiros verdes e um transporte público que atende muito bem às necessidades da população. Berlim está preparada para abrigar 1,5 milhão de habitantes acima do que tem hoje.
Porém o presente segue sempre o mesmo caminho e, por isso, Berlim me surpreende. Muitas vezes, anunciam um novo projeto de expansão do metrô, uma nova avenida, uma nova urbanização ou qualquer outra grande obra e penso: para quê? Não é necessário. O atual modelo da cidade é mais do que suficiente. Pois é justamente por esse motivo que a cidade está sempre à frente de suas necessidades. O planejamento ocorre sobre o que será necessário.
Comparo então a política de remendos que se conhece no Brasil. Uma situação é empurrada com a barriga até que exija irremediavelmente uma soluçao. Entao posterga-se a solução. Iniciam-se as discussões para sanar o problema. Políticos prometem a solução para seu mandato. Terminam o mandato e o problema volta a pauta. Quando se começa finalmente a operar, a solução já não cobre nem de longe o problema e dá margem para novas acusações e promessas no período eleitoral.
Porto Alegre sofreu durante anos com alagamentos. Quando a Avenida Goethe já estava quase entrando para os atlas como rio e o “Lago da Goethe” já era candidato a sediar o próximo campeonato mundial de jet-ski, começaram uma obra que, terminada, só aliviava o problema. Consertos em estradas só são providenciados quandojá é possível fazer alpinismo dentro dos buracos, esquecendo-se que o simples fato de o asfalto não estar impecável já é uma afronta aos motoristas. O trânsito precisa chegar sempre a um ponto absolutamente caótico para que se comecem as obras de uma nova avenida ou de um corredor de ônibus que, quando o projeto vai para o papel, já não atende mais às demandas reais.
Publicado no Jornal Agora (Rio Grande-RS) |
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