[Ratio Puta]
Um blog com artigos de Felipe Simões Pires.
 

Tuesday, September 12

O Nazimo tem Raízes Socialistas

 Publico, com autorização do autor, minha tradução do ensaio do pensador italiano Dario Antiseri, cujo título original era "Il nazismo ha radici socialiste". Quem desejar receber o texto (também o original) em arquivo .doc, me mande um e-mail para "felipe_simoes_pires(arroba)yahoo.com.br".

1. Carl Menger e "o pressentimento da grande tragédia"

Foi durante o feriado de Natal de 1903 que Ludwig von Mises leu pela primeira vez Grundsatze der Volkswirtschaftslehre (Fundamentos de Economia Política) de Menger. E foi justamente graças a esse livro que Mises decidiu tornar-se economista. Em todo caso, exatamente em 1903 Menger abandonou, antes do tempo, o lecionar. Mises encontrou-o pessoalmente só quatro anos depois. "Sempre me intrigou — afirma Mises em sua Autobiografia escrita em 1940 — por que esse homem não utilizou melhor suas últimas décadas de vida. Que ainda era capaz de dar esplêndidas contribuições demonstrou no artigo Geld (dinheiro) que escreveu para o "Handwörterbuch der Staatswissenschaften" (Dicionário de Bolso da Ciência do Estado - Mises 1996, p. 63). Pois bem, Mises pensa possuir a solução do problema. "Creio (...) saber – escreve – o que o desencorajou e o reduziu precocemente ao silêncio. Sua mente lucidíssima tinha intuído em que caminho estava desembocando o desenvolvimento da Europa e do mundo inteiro. Já via essas soberbas civilizações escorrendo precipitosamente ao abismo. Menger pressentiu todos os horrores que hoje estamos vivendo. Ele sabia quais conseqüências o mundo haveria de pagar pelo abandono do liberalismo e do capitalismo e enquanto estava em seu poder contrastar com essas tendências o fez. Suas Untersuchungen über die Methode der Socialwissenschaften (Pesquisas sobre o Método das Ciências Sociais) foram escritas também em polêmica contra todas as correntes ideológicas que, das cátedras do grande Reich prussiano, intoxicavam o mundo. Mas sabia que a sua era uma batalha inútil e desesperada e isso fê-lo cair em um tétrico pessimismo que paralisou suas forças e que transmitiu também a seu jovem aliado e amigo, o arqueduque hereditário Rodolfo de Asburgo. O arqueduque certamente não se suicidou por causa de uma mulher, mas porque se desesperava ante o futuro de seu império e da civilização européia. Levou consigo aquela jovem mulher – que também desejava morrer –, mas a morte não foi por sua causa" (Mises 1996, pp. 63-64).

2. Ludwig von Mises, 1927: "A nossa civilização está fadada a acabar"

O pressentimento da tragédia que atacaria a Europa, e que virou angústia, Carl Menger transforma em profecia em seu seguidor Ludwig von Mises. Como lembra Fritz Machlup, “trata-se da profecia sobre o fim da liberdade na Europa Central e sobre a impossibilidade, para nós, de continuarmos vivendo na Áustria” (Machlup 1975, p. 8).
Era 1927. Apoiado na janela de seu escritório, que dava para a Ringstraße, não apenas uma vez, Mises põe-se a dizer: “Provavelmente neste lugar crescerá capim, pois que a nossa civilização está fadada a acabar”. Muito freqüentemente – recorda Machlup – “ele refletia sobre essa previsão com ironia, rindo de sua profecia. Costumava dizer: 'Todos devemos ir, mas onde ficaremos e que coisas não mais faremos? Que trabalho estaremos em condição de fazer?'. Pois imaginava-se em um país qualquer da América Latina e brincava de atribuir futuros papéis aos membros do seminário, escolhendo os empregos adequados a cada um de nós. A mim havia atribuído o papel de dançarino num night club, dizendo que procuraria entreter e divertir jovens e velhas senhoras. Também muitos colegas tinham obtido um emprego no night club como atores, cantores, camareiros, acompanhantes ou barmen. Quando chegava a sua vez, dizia: ‘Eu, infelizmente, não sou um bom dançarino ou bom cantor e não penso que serei um bom camareiro. Portanto, deverei trabalhar como porteiro uniformizado em frente ao local’" (Machlup 1975, p. 9).

3. O espírito "anticapitalístico" e "socialístico" do partido nacional-socialista

"A filosofia dos nazistas, ou seja, do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, é a mais pura e mais consistente manifestação do espírito anticapitalístico e socialístico de nossa época" (Mises 1990, p. 633). Isso escreveu Mises em Caos Planificado. Gemeinnutz geht vor Eigennutz (O benefício comum vem antes do benefício privado): neste slogan concentrava-se a "sabedoria econômica" dos nazistas – uma idéia que "implica que a economia de lucro prejudicaria os interesses vitais da enorme maioria do povo e que é sagrado dever do Go­verno Popular evitar a formação de lucro por meio do controle público da produção e da distribuição" (Mises 1990, p. 633).

Na árvore genealógica dos pais do nazismo, Mises vê "doutrinas de latinos como Sismondi e Georges Sorel e de anglo-saxões como Carlyle, Ruskin e Houston Stewart Chamberlain (...) Também o traço ideológico mais conhecido do nazismo, a fábula da superioridade da raça ariana, não era de origem germânica; seu autor foi um francês, Gobineau. Alemães de ascendência judaica como Lassalle, Lasson, Stahl e Walter Rathenau deram às doutrinas essenciais do nazismo uma contribuição maior que a de nomes como Sombart, Spann e Ferdinand Fried” (Mises 1990, p. 633).

Socialista é – segundo Mises – toda sociedade que haja abolido a propriedade privada dos meios de produção. E tal sociedade – seja ela nazista, fascista ou comunista – juntamente com a abolição da propriedade privada dos meios de produção, elimina toda liberdade política e aniquila os direitos humanos.

Aponta Mises em A Ação Humana: “Não apenas a liberdade econômica que a economia de mercado concede a seus membros é retirada. Todas as liberdades políticas e carta de direitos tornam-se ilusão. Habeas corpus e processos ante a justiça são uma vergonha se, sob o pretexto da oportunidade econômica, a autoridade tem poder de enviar todo cidadão indesejado para o Ártico ou a um deserto e submetê-lo a “trabalhos forçados” em vida. A liberdade de imprensa é uma pura ilusão se a autoridade controla todos os ofícios de prensa e as gráficas. E assim é com todos os outros direitos do homem" (Mises 1959, p. 277).

A realidade é que a substituição da economia de mercado pela economia planificada "tolhe todas as liberdades e deixa ao indivíduo unicamente o direito de obedecer” (Mises 1959, p. 277).

4. Os "socialistas da cátedra" foram precursores das duas guerras mundiais

O "socialismo" é um sistema social baseado na propriedade pública dos meios de produção. Em tal sistema, "todos os recursos materiais são empregadores" (Mises 1994, p. 78); implica – como já se viu, a liberdade de imprensa, na qual as gráficas e tipografias pertencem ao Estado, é simplesmente uma ilusão. Como é uma ilusão a liberdade de associação e também de religião, na qual todos os edifícios, inclusive igrejas, são propriedades do Estado.
Mises insiste: "Não se pode exercer alguma liberdade de escolha da profissão e da ocupação onde o Estado é o único empregador e atribui a cada um a tarefa de cumpri-la. Não se pode exercer alguma liberdade de estabelecer-se onde se quer onde o Estado tem o poder de fixar o local de trabalho de cada um. Não se pode exercer uma real liberdade de pesquisa científica onde o Estado é proprietário de todas as bibliotecas, arquivos e laboratórios e tem o direito de mandar qualquer um a um posto onde não possa continuar suas pesquisas. Não se pode exercer qualquer liberdade na arte ou na literatura quando o Estado decide quem deve criá-la. Não se pode exercer nem liberdade de consciência nem de expressão quando o Estado tem o poder de transferir todos os opositores a locais com clima nocivo a sua saúde ou de atribuir-lhes tarefas que estejam acima de suas forças e que os abatam seja física ou intelectualmente. Em uma comunidade socialista, o inivíduo-cidadão não pode ter liberdade maior que a de um soldado no exército ou de um órfão no orfanato" (Mises 1994, p. 79).

Um ingrediente "especificamente alemão" no nazismo foi – precisa Mises sempre no Caos Planificado - "a luta pela conquista do Lebensraum (espaço vital)” (Mises 1990, p. 635).[[1]]  E em outras "o plano nazista era mais extenso e por isso mais pernicioso que o dos marxistas. Seu objetivo era a abolição do laissez-faire não somente na produção de bens materiais, como também na produção do homem. O Führer não era somente o diretor-geral de todas as indústrias; ele era igualmente o diretor da "empresa de reprodução" responsável pela criação dos homens superiores e a eliminação da raça inferior” (Mises 1990, p. 635).

Com tudo isso, em todo caso, não se devem esquecer – adverte Mises – aquelas que são as raízes socialistas do nazismo. E, de fato, “por mais de setenta anos, os professores alemães de Ciência Política, História, Direito, Geografia e Filosofia inculcaram com grande zelo em seus alunos um ódio histérico no confronto com o capitalismo e pregaram a guerra de «liberação» contra o Ocidente capitalístico. Na Alemanha os “socialistas da cátedra”, muito admirados em todos os países estrangeiros, foram os precursores das duas guerras mundiais.
Na virada do século, os alemães em sua grande maioria já eram defensores radicais do socialismo e do nacionalismo agressivo. Já então, haviam feito os princípios do nazismo propriamente dito. O que faltava, e se veria adicionado em seguida, era somente uma palavra para indicar sua doutrina "(Mises 1990, p. 634).[[2]]

5. Lênin, Trotski e Stalin: três mestres dos nazistas

Em uma perspectiva genérica, bem se compreende que Hitler – na opinião de Mises – "não foi o fundador do nazismo; dele foi o produto" (Mises 1990, p. 634). Hitler era um gângster sádico (Mises 1990, pp. 634-635),[[3]] um obcecado em busca de megalomania. E suas presunção e megalomania passam a ser acariciadas e exaltadas pelo grupo dos intelectuais.
Um exemplo para tudo é o de Werner Sombart. Em 1909 Sombart em Das Lebenswerk von Karl Marx (A Obra de Vida de Karl Marx) se vangloriava de ter dedicado sua vida às idéias de Marx (Sombart 1909, p. 3); mais tarde, em 1934, em Deutscher Sozialismus (Socialismo Alemão) declarará que a Führertum significa uma revolução permanente e que o Führer recebe suas ordens diretamente de Deus, o supremo Führer do universo (Sombart 1934, p. 233).[[4]]

Eis, então – e este é o ponto conclusivo da argumentação de Mises –, que “quando as políticas socialistas de extermínio em massa de todos os dissidentes e de violência impiedosa perderam a inibição contra o assassínio em larga escala, que ainda preocupava alguns alemães, ninguém mais poderia, ao longo dela, impedir o avanço do nazismo. Os nazistas adotaram rapidamente os métodos soviéticos. Importaram-nos da Rússia; o sistema do partido único e supremo poder desse partido na vida política; a posição predominante atribuída à polícia secreta; os campos de concentração; o assassinato e aprisionamento de todos os opositores; o extermínio da família dos suspeitos e exilados; os métodos de propaganda; a organização de partidos afiliados no exterior e seu emprego na luta contra os governos locais e em espionagem e sabotagem; o uso do serviço diplomático e consular para fomentar a revolução; e muitas outras coisas ainda. Em nenhuma outra parte, Lênin, Trotski e Stalin tiveram discípulos tão dóceis como os nazistas” (Mises 1990, p. 634).[[5]]

6. O nacional-socialismo, na Alemanha, foi o êxito da ausência de uma burguesia forte

Das raízes socialistas do nazismo Hayek fala no décimo segundo capítulo de O Caminho da Escravidão: “É um erro – escreve – considerar o nacional-socialismo como uma mera revolta contra a razão, um movimento irracional sem base intelectual" (Hayek 1995, p. 227).
Se fosse essa a situação, o nazismo não teria sido tão perigoso. A realidade é, portanto, que "a doutrina do nacional-socialismo constituiu-se na realização de uma longa evolução do pensamento, um processo ao qual se prenderam parte dos pensadores que tiveram grande influência fora dos confins da Alemanha" (Hayek 1995, p. 227).

E, para explicitar, no processo evolutivo que leva ao nazismo, à presença dos pensadores alemães, Hayek vê acreditados pensadores não alemães como Thomas Carlyle e Houston Stewart Chamberlain, Auguste Comte e George Sorel (ivi, p. 227). Abraçados a uma minoria reacionária, as idéias desses pensadores conseguiram, por fim, conquistar o consenso da grande maioria dos alemães e, substancialmente, de todos os jovens.

Como foi possível tudo isso? Isso foi possível não porque a burguesia facilitou a ascensão do nazismo, mas pela razão inversa: pela ausência na Alemanha de uma burguesia forte (ivi, p. 223).  "Foi a união das forças anticapitalísticas de direita e de esquerda, a fusão entre socialismo radical e conservador, que limpou o caminho da Alemanha de qualquer coisa que fosse liberal" (ivi, p. 223). De tal modo na Alemanha se fez a conexão entre socialismo e nacionalismo. "É significativo, aponta Hayek, que as mais importantes referências do nacional-socialismo — Fichte, Rodbertus e Lassalle — são ao mesmo tempo reconhecidos como os pais do socialismo" (ivi, p. 224).

7. J. Plenge, P. Lensch, O. Spengler e A. Möller van der Bruck: se alinham com os "heróis" alemães contra os "mercadores" ingleses

O estouro da Primeira Guerra Mundial, com a histeria bélica que o caracterizou, marcou depois o início do desenvolvimento do nacional-socialismo – um desenvolvimento ao qual deram apoio vários velhos socialistas como, por exemplo, Werner Sombart. Em 1909 – fato que já vimos – Sombart afirmava orgulhosamente ter dedicado grande parte de sua vida a combater pelas idéias de Karl Marx (Sombart, 1909). De 1915, no entanto, é a sua famosa ópera Handler und Helden (Marcadores e Heróis) (Sombart, 1915), onde o velho socialista Sombart “saúda a «guerra alemã» como o inevitável conflito entre a civilização comercial da Inglaterra e a cultura heróica da Alemanha. É sem limites o seu desprezo no confronto das visões «comerciais» dos ingleses que teriam perdido todo instinto guerreiro” (Hayek 1995, p. 225). E ainda: “Sombart sabia que os alemães são desprezados pelos outros povos, porque consideram a guerra sagrada: mas ele não se abalava. Considerar a guerra como uma coisa não humana e insensata é fruto das idéias comerciais. Há uma vida mais nobre que a dos indivíduos, a vida do povo e do Estado; e é educado por parte dos indivíduos sacrificarem suas próprias vidas pelas vidas mais nobres".

E, depois de Sombart, o professor Johann Plenge – uma autoridade nos estudos sobre Marx (Plenge, 1911) – o qual, com seu influente ensaio de título 1789 und 1914: Die Symbol-Jahre in der Geschichte des politischen Geistes (1789 e 1914: Os Anos-Símbolos na História do Espírito Político), teorizou sobre as duas datas anos-símbolos – os símbolos dos conflitos entre as idéias de liberdade (as de 1789) e o ideal da organização (o ideal de 1914). Em todo caso, foi um membro da esquerda do partido socialdemocrata que elaborou e se esforçou em render notas ao público mais amplo concessões similares às de Plenge. Em Drei Jahre Weltrevolution (Revolução Mundial de três Anos) Paul Lensch escreveu: “Vista em perspectiva histórica, a decisão de Bismarck no ano de 1879 foi que a Alemanha assumisse o papel revolucionário, que é o papel de um estado cuja sua posição, relativamente aos outros países do Mundo, é a de representar um sistema econômico mais avançado e assim nos damos conta do fato de que, na atual revolução mundial, a Alemanha representa a parte revolucionária e a Inglaterra, a parte contra-revolucionária” (Plenge, 1916).

Plenge e Lensch – comenta Hayek – forneceram as idéias fundamentais aos mestres diretos do nacional-socialismo, em particular a Oswald Spengler e Arthur Möller van der Bruck.[[6]] Preußentum und Sozialismus (Prussianidade e Socialismo) de Spengler vem a ser publicado em 1920. Na Alemanha, escreve Spengler, muitas são as idéias mal afamadas, mas entre essas apenas o liberalismo é merecedor do maior desprezo. A verdade é que desde o tempo de Bismarck, o Estado prussiano veio a configurar-se sempre mais em sentido socialista. Pelo instinto alemão, ou melhor, prussiano, - escreve Spengler – “o poder pertence à totalidade. O singular serve a esta última. A totalidade é soberana (...) Cada um tem sua função. Manda-se e obedece-se”. E a esse ponto, conclui Hayek, “faltava só um passo para que o santo-patrono do nacional-socialismo, Möller van der Bruck, proclamasse a primeira guerra mundial, uma guerra entre liberalismo e socialismo" (Hayek 1995, p. 234).[[7]]

8. Nazismo e stalinismo: tão longe, tão perto

Então: nazismo e stalinismo estão verdadeiramente tão longe, são tão radicalmente diferentes? Representam verdadeiramente o nazismo e o stalinismo a direita mais extrema e a esquerda mais extrema, ou é verdade que toda uma série de características sobrepostas nos oferecem uma imagem análoga? Nazistas e stalinistas baseiam seu totalitarismo em um presumido "saber superior" — saber superior de "natureza salvadora" detido pelo Führer ou pelo "glorioso" chefe do partido.

O totalitário nazista ou comunista pensa conhecer o inelutável sentido da História; crê deter entre as mãos o sumo critério para decidir qual é a sociedade perfeita e qual é a "verdadeira" natureza do homem; está seguro de saber o que é o bem absoluto e onde está o mal absoluto; sabe qual é a raça ou, respectivamente, a classe destinada a realizar o bem sobre a face da terra e a dominar o mundo; se reputa capaz de dirigir a economia inteira.
Desses pressupostos gnoseológicos emanam "naturalmente": o partido único, a fé no líder, que tem certeza que "Deus está com ele", que crê que Deus finalmente lhe cedeu o posto; o domínio do partido sobre toda a vida política; o serviço das leis à vontade do partido, uma propaganda martelante através do uso exclusivo da imprensa e dos demais meios de comunicação; o controle mais minucioso sobre a vida "privada" dos indivíduos; o mais rígido monopólio da educação, com a imediata dispensa de todos os professores não perfeitamente alinhados; a onipresença da polícia secreta; a perseguição dos suspeitos; o encarceramento, a tortura e até o assassinato de tantos quantos sejam identificados como "inimigos objetivos"; os Lager (campos de concentração) e Gulag.

A única verdadeira diferença entre nazismo e comunismo se constitui do inimigo objetivo: a outra raça ou a outra nação para o nazismo, a classe burguesa para o comunismo; o mundo será limpo de todos os indivíduos que encarnam o mal.

9. A doença do pensamento totalitário se chama "gnose"

Em 1937 Alfred Hoernlé, em uma conferência de título Would Plato have approved of the National-socialist State?, sustenta a diferença, que em Platão aqui é, entre o tirano e o filósofo-rei: o tirano é um ditador que não tem nenhuma filosofia e nenhuma idéia de bom; é obedecido porque sua força impõe o medo; ele é moralmente corrupto e na força dos seus desejos indisciplinados. O filósofo-rei, ao contrário, conhece o bem do Estado e esforça pela realização deste nobre ideal.
Escreve Hoernlé: "Prendamo-nos ao termo «tirano» em sendo rigorosamente platônico: é óbvio que os ditadores modernos, defensores de uma filosofia da vida, assemelham-se muito mais aos filósofos-reis de Platão que a seus «tiranos»" (Hoernlé 1967, p. 169). Brevemente, “os filósofos-reis e seus auxiliares (...) são substancialmente o análogo ao ditador moderno e ao fiel, disciplinado, partido (Partei) — seja o partido comunista na Rússia, o partido fascista na Itália ou o partido nacional-socialista na Alemanha —, por meio do qual o ditador domina” (Hoernlé 1967, pp. 170).
Não é por acaso — faz presente Hoernlé — que intelectuais nazistas como Theodor von der Pfordten, Hans F. K. Günther e H.A. Grunsky se referem a Platão na defesa da doutrina nazista (Hoernlé 1967, pp. 178-181).

A presunção fatal de um conhecimento absoluto superior referente à totalidade da sociedade, o bem e o mal, a natureza do homem e desta forma é uma doença típica do pensamento totalitário — e essa doença se chama "gnose".


O totalitário "sabe" quem é em estado de graça e "objetivamente" na perdição e, por conseguinte, vai "liquidá-lo".

Em Out of Step, Sidney Hook narra uma conversa sua ocorrida em sua casa com Bertold Brecht; conversa que tinha por objeto os velhos bolcheviques fuzilados no processo de Moscou: "E foi naquele ponto que ele pronunciou uma frase que nunca mais esqueci" — escreve Hook. "Ele disse: Aqueles lá, quanto mais inocentes, mais merecem ser fuzilados. Fiquei totalmente surpreso, que cri ter entendido mal. «Como disse?», perguntei-lhe. Ele repetiu calmo: «quanto mais são inocentes, mais merecem ser fuzilados». Suas palavras deixaram-me pasmo. «Por-que? Por quê?» exclamei. Limitou-se a lançar-me um tipo de sorriso nervoso. Esperei, mas não disse nada. Mesmo depois que repeti minha pergunta. Levantei-me, andei perto do quarto e peguei o capote e o chapéu. Quando voltei a ele, ainda estava sentado em uma poltrona com o copo na mão. Vendo-me com o capote e o chapéu pareceu surpreso. Largou o copo, levantou-se, peguei o capote e o chapéu e, com um aceno de sorriso, parti. Nenhum de nós disse palavra. Não o vi mais”[[8]].

E portanto: nazismo e stalinismo — direita e esquerda — tão longe, tão perto. Banesh Hoffmann, em seu livro Albert Einstein: criador e rebelde, escreve que nos anos entre 1965 e 1967 os russos publicaram as obras completas de Einstein em quatro volumes. Antes disso, porém, os ambientes oficiais comunistas não souberam mais que linha adotar nos confrontos à teoria da relatividade de Einstein. Ainda em 1952, a teoria einsteniana havia sido atacada por um acadêmico soviético, porque contrariava o materialismo dialético, núcleo central do marxismo. O acadêmico havia repreendido alguns cientistas soviéticos para apoiá-la. Informado a respeito por uma carta, Einstein respondeu em tom jocoso, dizendo que isso o alegrava notavelmente, não obstante se incomodasse havia tempo com as limitações impostas na Rússia às liberdades de pensamento e expressão. Escreveu depois o seguinte aforismo que veio a ser publicado em 1953: "No campo da daqueles que buscam a verdade, não existe qualquer autoridade humana. Quaisquer tentativas de fazer o magistrado, vêm seguidas das risadas dos deuses " (Hoffmann 1977, pp. 274-275). E escreve, entre outras, algumas estrofes mordazes a propósito do materialismo dialético:

"Com suor e fadiga enormes

Um grânulo de verdade esperas ver?

Oh imbecil! Aquieta-te trabalhando!

O nosso partido cria a verdade com decretos.

Algum espírito soberbo ousa talvez duvidar?

O crânio furado é sua imediata recompensa.

Assim ensinamo-lhes, como sempre antes de agora,

A viver suavemente e de acordo conosco" (Hoffmann 1977, p. 275).

10. A contribuição da "Grande Viena" à construção do "ideótipo" liberal

 

A contribuição de prestigiosos expoentes da "Grande Viena" (C. Menger, E. von Böhm-Bawerk, L. von Mises, F. A. von Hayek, K.R. Popper) foi decisiva no nosso século. Pelo desmascarar da "presunção fatal" dos nazistas, fascistas e stalinistas. Tratou-se de um desmascarar efetuado com instrumentos lógicos, epistemológicos e de teoria econômica, mandando às favas todo sermão moralista. Lênin não estava errado quando dizia que, para ele, Mach era mais perigoso a Viena que o czar a Moscou. E Mach era mais perigoso a Viena que o czar a Moscou pela razão que o "armamento gnoseológico" de Mach, entre outros, estava em condições de devastar ab imis fundamentis aquela "mitologia do materialismo dialético para a justificação do totalitarismo comunista. E é propriamente dos trabalhos dos grandes "vienenses" supracitados – mesmo se não só de suas obras – que emerge o ideótipo do homo liberalis. O defensor da liberdade é, antes de tudo, uma pessoa cônscia de sua falibilidade e da falibilidade alheia e da ignorância própria e alheia – de modo especial da ignorância de todos os indivíduos relativa ao conhecimento de situações particulares de tempo e de espaço. Os defensores da liberdade, sabendo que o "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente", não se faz a pergunta "quem deve comandar?"; busca antes responder à pergunta sobre "como comandar quem comanda?". Contra o esta­tismo, o liberal é liberalista: defende a economia de mercado, não só porque essa gera o mais amplo bem-estar, como sobretudo pelo fato de que sem economia de mercado não pode existir nenhum estado de direito – e, de fato "quem possui os meios estabelece os fins". O liberal refuta a idéia liberticida, estando acima do indivíduo qualquer outra entidade – como, por exemplo, o Estado, o partido, a classe etc. – autônoma e independente dos indivíduos: somente existem indivíduos. Os liberais sabem que a (presumida) sociedade perfeita é a negação da sociedade controlada: em todo utopista hiberna um capitão-de-ventura.

Não era e não é um conservador: o conservador teme à novidade; o liberal, ao contrário, assume a concorrência como um procedimento de descoberta do novo. O liberal não é anárquico, não é libertário: o liberal não pensa que não existem funções e deveres a serem delegados ao Estado. O liberal, diferentemente dos construtivistas, sabem que nem todas as instituições e eventos histórico-sociais são originados do plano intencional – dão-se de fato as inevitáveis conseqüências não intencionais das ações humanas intencionais. E portanto não era e é avesso também à teoria conspiratória da sociedade, à qual todos os eventos sociais negativos seriam frutos de conspirações ou conjurações ordenadas por inimigos ou, seja como for, indivíduos malvados – a realidade é que podem existir causas sem culpa e acertos sem mérito. O liberal defende, contra o Estado onívoro, os corpos intermediários e as instituições voluntárias. O liberal sabe que o mercado, ao par da ciência, é sempre inocente – se alguém contrai lucro vendendo armas ou traficando drogas, culpado não é o mercado; culpados são aquelas pessoas que vendem e drogas e desumana é sua ética. A ser reformado, neste caso, não é portanto o mercado, mas a ética; e ineficaz foram os pais, professores e pregadores. Nem é de se pensar que o mercado negue a solidariedade. A Grande Sociedade, ensinou entre outros F.A. von Hayek, não só pode ser solidária, porque é rica e pode assim permitir-so; ela deve ser solidária, porque, tendo-se rompido os vínculos que mantinham unidos os indivíduos no pequeno grupo, anula aquelas relativas segurança e proteção da qual gozavam os débeis: do dever do Estado de vir ao encontro dos necessitados de ajuda. Mercado e solidariedade são conjugáveis. Não conjugáveis são, pelo contrário, mercado e dissipação dos recursos, mercado e corrupção; o estatismo faz do homem ladrão e transforma os cidadãos em mendigos a serem resgatados o que lhes faz, por conseguinte, eleitores. E, por último, o liberal não é anticlerical. Escreve Hayek: "A  diferença do racionalismo da Revolução Francesa, o verdadeiro liberalismo não tem nada contra a religião e não posso senão deplorar o anticlericalismo militante e essencialmente não liberal, que animou grande parte do liberalismo continental do século XIX ".

 

Junto aos termos desta contribuição, o meu grato pensamento vai certamente ao amigo e professor Sergio Ricossa. Em anos tristes para a cultura italiana, triste para a teoria e prática da liberdade, Sergio Ricossa, solitário e com coragem, percorria os caminhos da "razão" da liberdade – e no-la indicou. Distante, hoje como ontem, dos "praticões da política", sobre o traço de Hayek, nos ensinou e ensina a refletir sobre princípios e, na base dos princípios, a valorizar homens, fatos e idéias. E encerro: quem sabe quantas observações críticas haverá de fazer Ricossa nos confrontos do ideótipo do homo liberalis acima delineado? Quais pontos haverá de acrescentar, o que haverá de subtrair, precisar ou redefinir? Talvez me repreenda por ter-me atido à "Estação Liberal"; talvez me diga que devo apressar-me ao "Caminho Libertário". Quem sabe?

Encontrei Sergio Ricossa, pela primeira vez, mais de trinta anos atrás no escritório do Editor Amando; e depois outras vezes; recentemente na ocasião – deveras bela – da jornada torinense de estudos em honra do professor Enrico di Robilant. Ainda nos encontraremos e discutiremos e estou certo de que aprenderei. No momento, porém, não estou disposto a seguir o amigo-mestre Sergio Ricossa na direção do compasso dos "libertários". Proíbe-mo Hayek, já que o libertarianismo me parece propriamente como uma forma de construtivismo, liberalismo construtivista. Desaconselha-o Popper, porque "a sociedade aberta é um fato e um ideal". Ri­cossa, e certamente não o levará a mal, pare de insistir-me tanto sobre esse ideal; de minha parte, pelo contrário, e não penso por minha vez estar fazendo mal, olho com preocupação os fatos e presto atenção sobre uma teoria não construtivística e evolutiva da liberdade – uma teoria não construtivista, mas não por isso não empenhada sobre o plano concreto da política.

Dario Antiseri - 1999



[1]   Mises prossegue: "E também isso foi um êxito de sua concordância com as idéias que guiavam os políticos dos partidos mais influentes de todos os outros países. Tais partidos tinham a igualdade de rendimentos como a coisa principal. Os nazistas fazem o mesmo. O que caracteriza os nazistas é o fato de não estarem dispostos a aceitar uma situação na qual os alemães estejam condenados para sempre a ficaram "aprisionados", como os mesmos diziam, em uma área comparativamente pequena e superpopulada, na qual a produtividade do trabalho deve ser mais baixa que nos países comparativamente subpopulados, ou melhor providos de recursos naturais e de capital. Seu objetivo é uma distribuição mais igual dos recursos naturais da terra. Como nação «deprivada» (have-not) esses olham a riqueza das nações mais ricas com o sentimento com o qual muitas pessoas nos países ocidentais olham os rendimentos mais altos de alguns entre seus concidadãos.
Os «progressistas» dos países anglo-saxões afirmam que «não vale a pena ter a liberdade» para haver a injustiça de ter um rendimento relativamente baixo. Os nazistas diziam a mesma coisa em relação às relações internacionais. Segundo eles, a única liberdade que conta é a Nahrungsfreiheit (que é a liberdade de importar bens alimentares). Eles aspiram à posse de um território amplo e rico de recursos naturais o suficiente para permiti-los viver na autosuficiência econômica em um nível não inferior a qualquer outra nação. Consideram-se revolucionários que lutam por seus direitos naturais inalienáveis contra os interesses adquiridos de um grupo de nações reacionárias.
É fácil para os economistas demolir as falácias inseridas na doutrina nazista. Mas quantos desprezam a economia como «ortodoxa e reacionária» e defendem obstinadamente as falsas doutrinas do socialismo e do nacionalismo econômico e não arriscam confutá-las.
De fato, o nazimo não foi outra coisa senão a aplicação lógica dos dogmas socialistas às condições particulares de uma Alemanha comparativamente superpopulada” (pp. 633-634).

[2]   Para Mises as políticas pró-socialistas dos países industrializados da Europa Central e Ocidental tinham, na evolução rumo ao socialismo, um peso maior que a busca por poder da parte de Lênin. “O plano de seguridade social de Bismarck foi um experimento no caminho em direção ao socialismo mais importante que a expropriação das indústrias russas retiradas. As ferrovias nacionais prussianas tinham fornecido o único exemplo de empresa administrada pelo governo que, ao menos por um pouco de tempo, tenha evitado uma manifesta falência financeira. Os ingleses já tinham adotado antes de 1914 partes essenciais do sistema alemão de seguridade social. Em todos os países industrializados, os governos estavam empenhados em políticas intervencionistas, destinadas a desembocar por fim no socialismo. Durante a guerra, a maior parte desses países se empenhou naquele que se tem chamado "socialismo de guerra". Na Alemanha, o programa de Hindenburgo que, obviamente, não pôde ser completamente realizado por causa da derrota alemã, era igualmente radical mas muito mais bem projetado que os planos quinquenais russos, sobre os quais tanto se fala” (Mises 1990, p. 620).

[3]   Hitler “era, assim como a maior parte de seus colaboradores, um gângster sádico. Ele era inculto e ignorante; até repetiu o primeiro ano do ginásio. Não exerceu mais nenhuma boa atividade. É uma fábula que teria sido tapeceiro. Sua carreira militar na Primeira Guerra Mundial foi antes de tudo medíocre. A Cruz de Ferro de primeira categoria foi-lhe dada após o final da guerra como prêmio por suas atividades como agente político. Era um obcecado em busca da megalomania”.

[4]   Sombart - aponta Mises - que “a American Economic Association tinha eleito como membro honorário e ao qual muitas universidades alemães haviam conferido o laurel honoris causa” (Mises 1990, p. 633)

[5]   E ainda: “O verdadeiro significado da revolução de Lênin é o de ver no fato a explosão do princípio da violência e da opressão sem limites. Foi a negação de todos os ideais políticos que por três mil anos haviam guiado a evolução da civilização ocidental” (Mises 1990, p. 621).

[6]   Em nota, Hayek (1995, p. 232) cita outros intelectuais da germanística que produziram o nazismo e, entre esses, menciona: Othmar Spann, Hans Freyer, Carl Schmitt e Ernst Junger.

[7]   Sull'argomento si veda Moeller van der Bruck (1933, p. 87).

[8]   Vedi Hook (1987) cit. in Revel (1989, p. 324)

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