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Tuesday, March 14
Texto de autoria do amigo Fabrício Maraschin.
No auge da crise política não faltaram elogios ao "caráter investigativo" (uau!) da imprensa nacional.
Era um festival de cassáveis e governistas afirmando que não haveria chance do episódio acabar em pizza, porque a imprensa não ia deixar. Cogitou-se até o impeachment, mesmo que timidamente, pois faltava o principal: apoio popular.
Ninguém ia forçar um impeachment sem antes ouvir a opinião do Presidente sobre os fatos que, dia após dia, maculavam a imagem do governo. Pois bem, o presidente falou à nação e não disse nada. Não viu, nem ouviu nada. E ainda por cima foi traído. Coitado. Pobre Lula, apunhalado pelos próprios companheiros de partido. E ficou por isso mesmo.
Depois disso seguiram-se meses de enrolação sensacionalista, bem ao jeitinho brasileiro: era secretária gostosa posando na Playboy, era eleição da musa da CPI (com espaço para Heloisa Helena! Céus!), era eleição do parlamentar mais bonito pelos movimentos gays (ou GLS, como quiserem, pra mim é tudo a mesma merda), era dinheiro na cueca... E a nossa "imprensa investigativa" fazendo a festa, ô le lê... Quantas manchetes!
O tempo foi passando. E bem, você sabe, chega uma hora que esse papo de política enche o saco. Então, as notícias da crise foram sumindo aos poucos, foi chegando o fim do ano e "ufa!", disse o Governo. Acabou a crise.
Na verdade não acabou e nem vai acabar porque ninguém sabe onde fica o fundo desse poço e não interessa a nenhum partido esclarecer um assunto tão nebuloso como os financiamentos de campanha. Nessas horas, tanto governo quanto oposição tremem. A imprensa fez o alerta: "sem uma reforma política não haverá solução, medidas urgentes tem de ser votadas já para o pleito de 2006". Bravo! Salve a imprensa nacional!
Pularemos o episódio Severino Cavalcanti, que, francamente, é digno de choro.
E o tempo passando. Então, diante da maior crise da história do Congresso Nacional, quando a faxina deveria ser geral, chega o fim do ano e nossos parlamentares decidem que precisam descansar. Ora, chegou o fim do ano, os "funcionários" da instituição mais patética do país PRECISAM dos seus três meses de férias. Pois bem, diante das cobranças da imprensa e da população, são convocadas algumas sessões extraordinárias a preço de ouro e... Nada feito... Na maioria delas, sequer quórum havia para votar coisa alguma.
Diante de mais meia dúzia de críticas, alguns deputados reagem: "ora não somos farinha do mesmo saco, não se pode generalizar, eu venho sempre às sessões, devolverei o $ dessas convocações".
Passada a fase reality-show da crise, que começava a perder ibope, os veículos faziam questão de prestar contas sobre o que perdera a graça para qualquer brasileiro comum.
Mas quando o presidente do Congresso (governista, eleito a muito sacrifício) chega ao cúmulo de negociar "cotas" com os outros partidos para que as sessões sejam realizadas com o número mínimo de 51 parlamentares e, por ironia do destino, se conseguem apenas 50 presentes de um total de 513... Puta que pariu, se não se pode generalizar, onde estavam os outros 400 e tantos??? Seria o "baixo-clero" (baixo o que mesmo?)? E os novos ícones da moralidade política nacional? Onyx Lorenzoni, Denise Frossard, ACM Neto (céus!), Heloísa Helena (de novo?)? De uma hora para outra também sumiram. Cada um ao seu estilo, se expôs e se escondeu novamente, não por acaso, afinal faz parte do jogo sair por cima da carniça, salve-se quem puder diria o marujo apavorado...
Na imprensa, silêncio. No máximo, uma reporterzinha informando de maneira apática: "é, pois é, hoje foi mais um dia de casa vazia aqui no plenário" Que coisa, não? Tudo igual na República das Bananas. (finalmente, em fevereiro é aprovado o projeto de lei que reduz o recesso parlamentar de 90 para 55 dias, que, convenhamos, ainda é muito)
Depois de tanto, como controlar o desprezo crescente por essa coisa repugnante na qual se transformou a imprensa brasileira? Se a classe política segue dando exemplos de indiferença e dançando o samba de uma nota só de sempre, não seria a imprensa quem deveria assumir a bronca? Seria. Mas, infelizmente a imprensa, seja ela ligada ao governo, seja ligada à oposição, também está alinhada com os interesses que pautam as disputas de poder.
Alguns cientistas políticos, desde cedo, apontaram: há um novo ingrediente nesta crise, a internet. Se gabam como se tivessem descoberto a América. Ao menos lá, o debate pega fogo mesmo. São dezenas de blogs e portais onde se discute a crise. Ora, e de que adianta o debate limitar-se às fronteiras do mundo virtual? Se nem lá o assunto é tratado com a serenidade e a isenção necessárias? São poucos - pouquíssimos - os espaços onde o debate se dá de maneira inteligente. A maioria dos comentários são colocações ridículas baseados na polarização PT/PSDB. Isso sem falar nos debilóides de plantão, ora de direita, citando Cuba e o MST para atacar o governo, ora de esquerda, condenando o neoliberalismo e o imperialismo norte-americano. Acusações, justificativas, mais acusações e nenhuma conclusão.
E aqueles ativistas-político-virtuais que repassam todo tipo de mensagem moralizadora? "amanhã é o dia do luto, do basta, da vergonha nacional, saiam de suas casas vestidos de preto!" Aposto que você tem ao menos um amigo ou colega de trabalho desse naipe. E aqueles que repassam aquele arquivo de Powerpoint com todo o cardápio do Palácio do Planalto e quanto foi gasto em bombom, rapadura, whisky (ooh!), banana ou bolacha-maria... Mas afinal, que diabos isso importa?
O Congresso continua paralisado e o país vai a reboque.
Foco. Eis o grande problema do debate político que se impõe na esfera pública brasileira. Se discute quem é mocinho, quem é bandido e não se sai do lugar, enquanto as questões cruciais, os verdadeiros entraves à evolução política do país seguem ignorados. De nada adianta a retórica demagógica dos cientistas políticos que apontam as reformas necessárias e acreditam, assim, estarem cumprindo seu papel. Mais parecem papagaios: gritam, berram, esperneiam e, no fim, como era de se esperar, se conformam.
Está certo que tais reformas não se fazem da noite para o dia. É preciso um ambiente político favorável dizem os alquimistas. Discordo. Já são muitos anos de espera. Mais eficaz seria uma cobrança imediata e irrestrita por parte da imprensa e sociedade.
Cobranças da imprensa a gente vê e desdenha, porque sabe como acaba. Agora, cobranças da sociedade, o que é isso? Eu não reajo, mas ainda tenho esperança. Afinal sou brasileiro e não desisto nunca: sou alegre, risonho, burro e feliz. Não restam dúvidas, o pior do Brasil é o brasileiro.
posted by: fsp | 09:13
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