[Ratio Puta]
Um blog com artigos de Felipe Simões Pires.
 

Friday, April 16

Ora, “quem é gaúcho?”

 

Tenho lido, ultimamente, alguns textos “tradicionalistas” incrivelmente absurdos. Artigos “made in Brazil”, ou de “cetegistas” muy lejos da Campanha. Como filósofos da gauderice, chegam a questionar até mesmo se temos o direito de reivindicar apenas para nós a possibilidade de ser gaúcho. Está na hora de se colocarem os pingos nos is.

 

A única coisa que o tal tradicionalismo tem feito de bom para a cultura gaúcha é sua divulgação como peça de mostruário. E, ao contrário de preservá-la, apressa seu desaparecimento.

 

É tarefa inglória, mas necessária, fazer a distinção entre gaúchos e rio-grandenses. Os gaúchos SÃO (e não, “foram) o povo que legou a este Estado toda a sua herança cultural, sua identidade e raízes. Se, ao longo dos anos, muitas cidades do Rio Grande abandonaram o jeito-de-ser dos crioulos, não deixaram de ser rio-grandenses.

 

O gaúcho ainda existe e muda, ao contrário da idealização de museu feita com o “gaúcho legítimo” apresentado pelo tradicionalismo. Enquanto legislam sobre o comprimento da manga da camisa, há peões de “calça vaquero” (jeans) e manga curta, ignorando os manuais do MTG.

 

Os gaúchos não estão em uma reserva indígena; são personagens vivos da história. Se criássemos um CTI (Centro de Tradições Indígenas), reproduzíssemos mini-tabas pelo mundo afora, fizéssemos “fandangos” com músicas típicas semanalmente, vestidos a caráter, não seríamos índios mesmo assim. E enquanto decidissem qual material é aceito na confecção da tanga do cacique-patrão do CTI, a indiada já estaria andando de calção e camiseta pelas aldeias verdadeiras.

 

O tradicionalismo só reflete a “realidade gaúcha” para quem não a conhece. E para esses é muito importante saber onde aprender sobre nossa história e cultura. Só não me venham dizer que viraram guascas porque compraram uma “fantasia” de gaúcho e leram sobre nossos heróis.

 

Hay lugares no Brasil, onde “ser gaúcho” virou uma opção, como ser surfista, punk ou médico. Não é. Assim como para muitos rio-grandenses, que decidiram resgatar suas raízes (o que já pressupõe que as tenham perdido), ser gaúcho ainda é muito diferente de ter nascido no Rio Grande ou ter decorado a nossa história em algum pago lejano.

 

Como, hace poco, uma amiga minha, prenda e dançarina de CTG se mostrou incapaz de entender um paisano argentino que, descontando os devidos “castelhanismos” falava um espanhol que poderia muy bem ser confundido com um xiru do Alegrete. E, ela não sabia, mas um hermano correntino ou uruguaio também é gaúcho. Aliás, muito más que ela (que nunca respirou o ar do Pampa) ou qualquer desses outros que reivindicam agora que abramos mão do privilégio de ser gaúcho.

 

Felipe Simões Pires

Estudante de Jornalismo, porto-alegrense, criado pelo Rio Grande afora e “reaquerenciado” na Capital.

 

Publicado na Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul-RS)

posted by: fsp | 17:16 | comments (1)

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