[Ratio Puta]
Um blog com artigos de Felipe Simões Pires.
 

Saturday, January 31

Não fui Eu

 

Interessante é o caso envolvendo a absolvição de Tony Blair no caso Kelly e a demissão de funcionários da BBC como conseqüência. Permite-nos reavaliar alguns pontos e fazer comparações e conjeturas.

 

O cientista que teria afirmado à emissora londrina que Tony Blair tinha conhecimento de Saddam Hussein não ser o perigo que alardeava e que se suicidou logo em seguida, foi motivo de muita especulação envolvendo o nome do primeiro-ministro inglês.

 

Uma investigação parlamentar se seguiu para apurar o grau de envolvimento de Blair no caso, sendo totalmente inocentado no chamado Relatório Hutton. Revelada a apuração, as primeiras medidas tomadas pela televisão inglesa foram as destituições do jornalista que fez as acusações e do diretor da programação que as veiculou.

 

Convém neste momento ressaltar o profissionalismo da BBC. Emissora estatal (um dos últimos ranços do poder do Estado sobre os indivíduos ingleses), teve uma postura isenta diante dos fatos, sendo capaz de veicular acusações contra seu chefe-mor. Dadas como falsas, não titubeou e puniu os responsáveis por elas.

 

Apesar de alguns oposicionistas ingleses creditarem a absolvição de Blair a pressões políticas, a exoneração de Dyke foi mais prejudicial à imagem do premiê, cuja renúncia era mais desejada pela opinião pública do que a queda do carismático editor.

 

Num caso semelhante, como procederiam as emissoras brasileiras? Em iguais dimensões, apenas conjetura-se, mas pode-se lembrar dos episódios Fernando Collor e Ibsen Pinheiro, absolvidos pela Justiça comum, sem uma palavra de retratação nos meios de comunicação que veicularam suas “culpas”. Não cabe discutir se eram ou não culpados. A Justiça os declarou inocentes.

 

Entretanto, a maior rede de televisão brasileira, protagonista central da queda do ex-presidente, insiste em atribuir ao povo o caráter revolucionário de sua derrubada.

 

De um jornalismo que produz pseudo-heróis como Tim Lopes – o jornalista fazendo o papel da polícia, sem o devido treinamento para tanto e zombando do poderio dos criminosos até que lhe mostrem quem realmente manda – poderia-se esperar reação semelhante ao caso britânico? Ou será que veríamos (novamente) a omissão dos nomes ou a exaltação dos “repórteres”?

Publicado no jornal A Plat驡 (Santana do Livremento-RS)

posted by: fsp | 12:51 | comments (1)

Monday, January 26

Argentina, Uruguai e Paraguai. Dá-lhe.

 

Nada mais lindo que outra eliminação brasileira no futebol. Um país que ainda não aprendeu que o futebol evoluiu e tornou-se algo sério, disputado e ganho pelo que mais se dispuser a ganhá-lo, realmente merece perder sempre.

 

Belos tempos de Garrincha e Pelé, onde as equipes jogavam com quatro, cinco atacantes e ganhava o que tivesse maior habilidade. Época em que o futebol "profissional" era uma mera pelada.

 

Passados 46 anos do primeiro título mundial conquistado pelo Brasil, o futebol tornou-se um esporte altamente profissionalizado, onde não há espaço para displicência, amadorismo ou puro "futebol arte". Apesar dos títulos conquistados com seleções equilibradas taticamente (70, 94 e 2002), o brasileiro ainda não aprendeu que reunir peladeiros de habilidade não ganha título.

 

A cada eliminação brasileira de algum campeonato, o diagnóstico é sempre igual: o time brasileiro é tecnicamente superior, faz belíssimas jogadas, marca preguiçosamente, dá dribles adicionais desnecessários, ganha de meia-dúzia de mortos e perde para um time que joga com coração, dedicação, marcação e objetividade. Mas o brasileiro não aprende.

 

Uma seleção que tem Robinho e assemelhados é garantia de um futebol bonito, de chapeuzinho na lateral do campo, de drible no círculo central, de belas jogadas e de goleadas contra equipes de fraca capacidade ofensiva. Porém, deixar o adversário jogar, não saber como se comportar diante da catimba, marcar à distância e montar agrupamentos (ao invés de seleções) de jogadores habilidosos é a garantia de derrotas "surpreendentes", de cartões desnecessários e eliminações.

 

O brasileiro, ao contrário do gaúcho, foi brindado com uma natureza de jogadores espetacularmente habilidosos, mas sem nenhuma noção de coletividade. Seguro de sua superioridade, para ganhar, apenas entra em campo. Simultaneamente, a maioria dos países sul-americanos carece de craques, mas - exatamente por isso - tem consciência de sua limitação e dispõem-se a dar sangue por uma vitória. Foi o que vimos, mais uma vez, no Chile.

 

Apesar de contente com mais um fracasso do amadorismo futebolístico brasileiro, não tenho esperanças de que (mais) esta lição mude o modo que os brasileiros concebem o futebol. Continuarão acreditando que futebol profissional e pelada são a mesma coisa, que futebol objetivo é desprezível por que é feio, que dedicação é violência e que habilidade (sem garra) ganha campeonato.

 

Publicado no Jornal Agora (Rio Grande-RS)

posted by: fsp | 12:35 | comments (1)

Wednesday, January 14

Tergiversando

Durante os anos 8 a 1 a.L. (antes de Lula), ou seja, sob a dinastia Cardoso, costumava-se rir dos aplausos efusivos que o ex-presidente Fernando Henrique recebia em seus habilidosos discursos em viagens internacionais, atacando as desigualdades e contando como fazia por aqui.

O motivo dos risos era, obviamente, a constatação de que a fala de FHC não correspondia às expectativas internas do País e que seu jargão sociológico servia apenas para agradar europeus que se sentiam culpados em relação à pobreza terceiro-mundista.

Já atravessamos 25% do mandato de Lula, sem que se possa dizer que suas ações no governo tenham sido condizentes com seu discurso. Porém, a cada viagem nacional ou internacional (ultrapassando o criticado número de seu antecessor), o atual presidente repete seu discurso de campanha, de posse, do Fórum Social Mundial (todos), do Fórum Econômico de Davos e todos os outros realizados anteriormente. Por que ninguém ri?

Talvez estejamos ainda inebriados pela overdose de propaganda (ou seria publicidade?) realizada em campanha e continuada após a posse, ou também, anestesiados pela recente simpatia dos grandes meios de comunicação pelo ex-operário.

Seja como for, quem não se ativer apenas aos releases da assessoria de imprensa do Governo Federal, ao discurso de seus membros ou a seus programas de rádio e televisão, constatará que estamos frente a uma gestão que vive tão-somente do carisma do presidente. Em linguagem futebolística – como gostaria nosso chefe maior –, trata-se de um time ruim, onde o "craque" joga para a torcida, driblando e perdendo gols, mas fazendo a alegria dos aficionados.

Após um ano no comando do País, já é possível contabilizar uma série de exemplos, nos quais a "parte suja" do serviço era feita pelos serviçais do Governo, enquanto o camisa 10 dava janelinhas à lateral do campo.

Se perguntarmos à "torcida", quem são os pernas-de-pau do time, a escalação sairá de cor (Berzoini, Benedita, Palocci, Dirceu, Genoino...), mas, ao contrário do que pensa o senhor presidente, este não é um jogador que pode ficar alheio ao que faz o resto do time. É o treinador.

É possível que o comandante máximo da nação discorde da política econômica de Palocci, com a viagem de Benedita (autorizada por ele), das medidas anunciadas por Berzoini, da mão-de-ferro de Dirceu e Genoino? Ou estaríamos diante de mera tergiversação?

Não sei, mas enquanto o representante do Governo (José Dirceu) anunciava o acordo com o FMI, Lula discordava em outro continente. Ao final, o acordo foi ou não firmado?

posted by: fsp | 13:50 | comments

Retratos da Insegurança

Cena inusitada: venho pela calçada quando avisto uma viatura policial, quase em frente à sinaleira, parando com um problema no câmbio. Às pessoas que passam, vendo a cena, abrem um discreto sorriso. Um policial desce do carro para empurrá-lo. Ninguém esboça qualquer movimento no sentido de auxiliar, como talvez fizesse caso isso ocorresse com um cidadão comum. Eis como é vista a polícia.

Há indícios copiosos de que a população enxerga as instituições policiais como meras forças repressoras, jamais como um aliado. Situação acentuada em regiões de periferia. Tenha-se em mente, também, que uma quantidade absurda de crimes ocorridos sequer é comunicada às autoridades competentes.

***

Outra desatenção. A opinião pública surpreende-se com as falhas na investigação dos crimes de Soledade, quando, na verdade, a repercussão do caso apenas serve para expor dificuldades diárias, repetidas em centenas de outros casos que não ganham manchetes nacionais.

Fruto de dificuldades financeiras, descaso ou o que for, as condições de trabalho que envolvem a Justiça são precaríssimas. Em um país onde um total ínfimo de crimes é solucionado, as luzes sobre o caso do maníaco no norte do Estado evidenciam os motivos e os passos que conduzem à ausência de solução dos delitos.

A falta de profissionais indispensáveis (exemplificada na demora com os exames de material genético recolhido), a falta de coordenação entre as unidades (sendo Adriano da Silva suspeito de crimes em várias cidades), a carência de efetivo policial (com a prisão obtida apenas quando de uma mobilização policial extraordinária) e diversos outros entraves à eficácia dos meios de que dispõe a sociedade.

Outrossim, convém recordar que algumas das crianças tornaram-se vítimas por estarem permanentemente nas ruas, desguarnecidas, atrás de esmolas ou programas sexuais. Isso chama atenção a outro ponto fraco da sociedade, que vitimou esses meninos e muitos outros, que é a falta de políticas sociais eficazes.

Não é todo dia que aparece um serial-killer para trazer à luz um sem-número de falhas do Estado. Faz-se mister, então, que o fato seja analisado de forma ampla, servindo de exemplo para a solução do assalto à padaria na esquina até novos adrianos. Ou, fatalmente, estaremos repetindo estas mesmas queixas daqui a um tempo.

posted by: fsp | 13:48 | comments

Friday, January 09

Qual é o problema?

Notícia que vem repercutindo na imprensa brasileira e mundial, o fichamento recíproco de cidadãos estadunidenses e brasileiros em ambos países não pode ser visto da maneira que vem sendo. Não estamos tratando apenas de uma questão de egos.

Se o governo dos Estados Unidos não excluiu o Brasil da lista de países cujos nacionais deveriam ser identificados com maior cuidado, não foi por acaso. Os analistas que vêm defendendo que não há explicação para tal ação são desinformados ou omissos.

É sabido que o passaporte brasileiro é o mais valorizado no mercado negro, pelo fato de qualquer pessoa poder se passar por um, dada a característica multirracial do país. Não bastasse isso, há anos que sabemos que existe, de fato, o livre trânsito de terroristas na região da Tríplice Fronteira, mas, irresponsavelmente, insistimos em negar, quando o correto seria agir com firmeza na fiscalização e não deixar margem para país algum pôr em dúvida a segurança na região.

Há também o aspecto político, visto que o governo Lula vem cortejando seguidamente nações que contam com pouca simpatia do governo norte-americano, mas, principalmente, que possuem um histórico de patrocínio ou apoio ao terrorismo, como Líbia, Cuba e a própria luta palestina. Sem contar que a negativa de Lula em considerar as FARC grupo terrorista ainda não foi digerida.

Razões, portanto, abundam para a preocupação ianque, ainda mais depois que o chefe dos assessores do presidente, Marco Aurélio Garcia, numa declaração infeliz e desnecessária, ofereceu asilo a Saddam Hussein. Provocações infantis, de criança birrenta, resultaram na inclusão brasileira, muito mais justificada que a da África do Sul, por exemplo, também integrante da lista. O que é passível de discussão é que países como Alemanha, França e Espanha, com sérios problemas com terrorismo estejam fora.

No entanto, a sentença da Justiça Federal, que devolve na mesma moeda a atitude estadunidense – que é vingança, sim, e não reciprocidade diplomática – também é justificável. Se um país suspeita dos habitantes de outro, por que a recíproca não pode ser verdadeira? Se os brasileiros são constrangidos ao desembarcarem nos EUA, qual seria o argumento para que não o fossem os americanos aqui desembarcados?

No final, ganham os americanos, prevenindo-se de eventuais terroristas e ganhamos nós, em termos de segurança. Afinal, o país do norte não tem um histórico de produzir terroristas, mas serial-killers...

Publicado na Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul-RS)

posted by: fsp | 12:18 | comments

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