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Sunday, October 19
De Aura Verborum Outro dia estava a raciocinar sobre as palavras e toda aura que em torno delas enxergamos. Bem como a aura humana, alguns dizem que vêem, outros não. Eu, particularmente, ainda não enxerguei uma em um ser humano, todavia as vejo em muitas palavras. Quando copiando em sala de aula, indaguei-me sobre o sentido daqueles traços tribais, simetricamente ordenados, advindos de um artefato esquisito chamado Bic, que se perpetuava em papiros clorados e pautados. Senti-me isolado num mundo artificial, onde talvez somente eu compreendesse o que grafava. Ou talvez nem entendesse, mas escrevesse instintivamente. Comecei, então, a ler e reler, pausadamente, cada palavra, analisá-las morfológica e sintaticamente, esperando que voltassem a fazer sentido e voltei à "realidade". Dentro de nossos padrões, passei a ver a dita aura dos vocábulos, pronunciados "a la gaúcha" por mim, desviado da fala lusitana, que desviara a pronuncia do Latim Vulgar, previamente sido Latim Clássico, adotado pelos romanos como sua língua dos seus vizinhos do Lácio. E isso é o que conhecemos. Cada palavra passou a ter uma vida, enriquecida por no mínimo 2800 anos, repetida incontáveis vezes, modificadas de acordo com a necessidade do falante, deturpada pela ignorância de uns, metaforizada pela rebusca de outros. Conversando com um igual e assimilando que a palavra pronunciada "nôitxi" corresponde gramaticalmente à lisboeta "noite", admito que os tupis-guaranis, espanhóis, jês e outros adaptaram a palavra que havia sido moldada por mouros, lusitanos e bárbaros germânicos na Península Ibérica, após a saída dos romanos, que falavam "nox", e que, em algum ponto da história, aparentava-se com a noite grega "nyx". A linha segue ao lembrarmos que jamais existiu um povo Grego, mas povos helênicos, que buscaram influências dos gentios, fenícios e mesopotâmicos, que como africanos, são considerados descendentes diretos dos primeiros hominídeos. Sendo os gregos e latinos lingüisticamente indo-europeus, hão de ter sofrido influências mais concretas dos povos daqueles lados, que podem ter-se expandido para os lados da Ásia Menor, aceitos como colonizadores da América, daí até chegar aos...? Tupis-guaranis e jês! Após essa reflexão talvez induzida, pus a caneta a traçar novamente nosso alfabeto latino, mas agora pesando muito mais. Carregando conscientemente a história desde a palavra uma vez dita por algum lavrador gaúcho, que exibia a aura de quando foi bradada diferentemente por algum centurião romano e assim por diante. Bom, as palavras têm aura, mas teriam carma? posted by: fsp | 14:01 | comments Friday, October 17
A Viagem Certas vezes viajamos. E viajamos. A viagem constitui-se em um processo transcendente que mistura o real e o imaginário à medida que transcorre. Numa viagem ao litoral catarinense, por exemplo, dividimo-nos em sentimento entre nossa saída, o local onde estamos e o destino final, onde já estivemos e já podemos visualizar a caminho. Saber onde realmente estamos é relativo, mas mais que a relação com os lugares os quais cruzamos sem a menor intenção de parar. Esses são lugares figurativos, inexistentes. São como imagens em um quadro, compõem a paisagem visual, porém não são iguais ao mundo que conhecemos. Vemos a Serra do Mar passar pelo nosso flanco visual sem atribuir-lhe qualquer condição de realidade. Não cogitamos a possibilidade de lá sermos presentes em verdade, senão da forma como podemos nos enxergar no espaço, flutuando. Eis que não temos comprovação de suas existências, a não ser por uma visão longínqua, mas nada nos impede que possamos imaginar nossa presença por lá, fora do real. Ao terminarmos de beber uma latinha de Coca-Cola que, providencialmente, acaba de pôr fim a nossa sede, jogamo-la pela janela do carro, rumo, quiçá, a um universo paralelo, onde, certamente, tal lata não cairá. Atiramo-la ao infinito, fazemo-la desintegrar-se num vácuo, jamais pensando em sua realidade ou seu pouso em um lugar real. Hora depois, por efeito do maldito conteúdo da lata, que não mais faz parte de nosso mundo, somos compelidos a parar à beira da estrada para eliminarmos a Coca, convertida em água e uréia. Nesse momento, os carros convertem-se em figurantes e passam por nós sem qualquer coeficiente do real, pois a realidade agora transferiu-se para a vala lateral da via, o matinho onde fazemos nossa necessidade fisiológica e, inclusive, uma latinha de Teem, esmagada no asfalto, mas ainda reconhecível. O odor das araucárias, adiante da cerca que inflige uma qualidade de propriedade ao território além-mijo, também é real e confirma-nos a existência daquele cenário. Embarcamos novamente e não mais vemos a lata de Teem, sendo o cenário agora pastoril. As raras presenças humanas nas habitações ao redor apenas ressaltam a vivacidade do quadro bucólico de Van Gogh que visualizamos. O tempo, por sua vez, também inexiste. É, pois, uma abstração completa, visto que permanecemos encerrados no mesmo ambiente, sem nos movermos. Quem está em movimento é o carro em relação a uma paisagem irreal. Não há, portanto, referencial de movimento nem tempo. Descendo, enfim, em Floripa, vemos uma cidade que em nada comprova nosso deslocamento real, exceto dar-nos uma idéia de período imensurável de tempo vivido em um brinquedo de parque de diversões. O diferente cenário real onde pisamos assume somente a condição de diferente do cenário inicial, mas nem tanto. Afinal, já estávamos em Santa Catarina quando partimos. posted by: fsp | 17:33 | comments Tuesday, October 07
Democratizar a Comunicação Aproxima-se a Semana pela Democratização da Comunicação sem que ainda se tenha claro o que isso significa. Via de regra, confunde-se o termo com fazer com que os meios de comunicação e suas práticas atinjam o maior número de pessoas possível. Isso não é democratizar, é – sem o sentido pejorativo da palavra – vulgarizar a comunicação. À idéia de democracia é intrínseca a execução do controle, do domínio da população sobre o modus faciendi e o modus operandi de algo. O mesmo também deveria ser considerado quando se fala em comunicação. A democracia seria o poder de decisão e influência do povo sobre o que é produzido e o que vai ao ar pelos meios de comunicação social. Dessa forma, ter-se-ia de concordar que programas dominicais como Gugu e Faustão ou um Diário Gaúcho são a vitória da democracia sobre a tentativa de elitizar a comunicação, fazendo com que, autoritariamente, todos tivessem que ser submetidos ao que nós, que não gostamos do Faustão, preferimos ver. Não obstante, essa visão simplista – que serve para alertar sobre a diferença entre querer vulgarizar o que nos interessa e democratizar, de fato, a comunicação – não satisfaz a necessidade de promover essa democracia para além dos índices de ibope. Compreendendo que só é livre para decidir aquele que tem acesso às diferentes visões sobre uma questão, pressupõe-se que a democratização da comunicação passe, necessariamente, pela vulgarização do direito a ser informado por diversas vertentes de entendimento sobre os fatos do dia-a-dia. Assim, teríamos pessoas em condições de refletir e optar pelo que preferirem. A democracia é algo além de fazer o outro pensar como nós, mas propiciar-lhe a condição necessária para dizer que estamos certos ou errados. Se não se tem por certo o que é realmente a "democratização da comunicação", sabe-se que, meramente, espalhar as idéias daqueles com quem concordamos é anti-democrático. Aliás, é autoritário e totalitarista. Especial para a Semana pela Democratização da Comunicação posted by: fsp | 13:22 | comments
Pinochet e Dona Vilma Talvez muita gente não entenda o porquê deste título, pois em nada associariam o ditador chileno àquela senhora que seqüestrou seus "filhos" na maternidade. De fato, pouco há em comum entre eles. Porém, na época em que o caso da dona Vilma veio à tona, houve pessoas que se dispusessem ao debate ridículo sobre ser ou não ser uma pessoa má aquela que rouba filhos dos outros, mas os cuida com o maior carinho. Não faltava quem dissesse "ela roubou, mas sempre foi uma boa mãe". Já no Chile de Salvador Allende – que não era nenhum santo –, o poder legítimo era do presidente eleito que, embora censurado pelo congresso e desrespeitando a Constituição daquele país, revestia-se do poder de autoridade máxima nacional. Eis que um militar, travestido de salvador da pátria, roubou a criança de Allende por meio de um golpe militar, passando a comandar o país com "mão-de-ferro", tudo em nome da proteção do país. Junto a isso, veio o surgimento da economia mais estável da América Latina e a construção de um dos melhores lugares para se viver no Continente até hoje. Atualmente, os defensores de Augusto Pinochet exaltam seu regime com base nos feitos econômicos, não lhe obstando a tomada ilegítima do poder e todas as perseguições contra adversários políticos e as mortes por ele provocadas. E a dona Vilma? Pois é, valendo-se da coerência lógica, imagino que essas mesmas pessoas que bajulam o general chileno, diriam que a senhora, que roubou filhos dos outros e os criou com a mesma obstinação com que Pinochet conduziu seu país, é digna dos mesmos louros que tributam ao senhor de farda. Ou, quem sabe, eu apenas fiz uma associação realmente sem sentido. |
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